segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Dados bibliográficos


O Laureans assume-se como adepto do Anarquismo no seu étimo, pela descrença nos pilares dominadores da Sociedade, por causa de muitos juízes e sobretudo da maioria dos advogados inscritos na Ordem que considera facciosa. Participou activamente nas campanhas... de Humberto Delgado e de Henrique Galvão, com a oposição democrática à ditadura portuguesa (e outras) desde a Cinelândia no Rio de Janeiro, Porto e Viana, Paris, Bruxelas, Nova Iorque e Newark.
Fugido à perseguição da polícia política exilou-se em França. E em 1971 foi vítima de uma tentativa de repatriamento dos EUA quando o F.B.I. lhe subtraiu o passaporte para não poder voltar ao país do exílio.
Último de uma família numerosa emigrada, o Laureans exerceu várias dezenas de actividades, até missionário leigo foi, por algum tempo, na América Latina, participando em diversas acções reivindicativas e lutas de libertação a favor de povos oprimidos, causas que empenhadamente, se reflectem na sua poesia. Amigo, dentre outros, de D. Hélder Pessoa Câmara, por motivos políticos é obrigado a ausentar-se do Brasil durante o regime militar para evitar o acontecido a quatro colegas encontrados mortos no rio Gandu no Estado do Rio de Janeiro, assassinatos atribuidos ao Esquadrão da Morte. Percorreu mais de quarenta países da Europa, das Américas e África, tendo trabalhado na maioria deles, essencialmente à procura de vivências com outrem, considerando-as as suas melhores universidades, apesar de ter frequentado Escolas Superiores e Universidades Livres no Brasil, na Bélgica e na França.
Diz Amadeu Torres, prefaciador de três dos seus livros: "é um viageiro inveterado, e o seu todo de homem sem fronteiras adquiriu-o sobretudo experiencialmente, primeiro como imigrante em trabalhos duros, depois como emissário convivente da solidariedade, justiça e fraternidade entre povos". A sua vida identifica-se muito com a maioria das personagens dos seus livros, portadoras de pormenores contundentes das suas amarguras e prazeres.
Em 1965 veio da América Latina para a Europa como delegado do ACOPLAM (Movimento Cultural e de Solidariedade entre Povos de Origem Latina, fundado em Bogotá), e bolseiro do governo francês para estudar em Paris, .onde se relacionou com diversas personalidades das artes e das letras, de entre as quais se destacam M. Helena Vieira da Silva, Arpad Szenes, o recusador do prémio Nobel Jean-Paul Sartre, sua companheira Simone de Beauvoir, o poeta Louis Aragon, Henri de Noguères (de L.D.H.), Pablo Neruda, Zélia Gatai e Jorge Amado. Também se relacionou com Casamaior escritor de Combates pela Justiça:
Uma série de livros sobre as arbitrariedades de juízes. Descobrindo-se, depois de se reformar, ser ele um juiz do Supremo em França.
Em Maio de de 1968 o Laureans foi protagonista do movimento estudantil e sindical, aparecendo na TV, falando em comícios e ocupando o teatro Odeão com diversos componentes revolucionários tais como: Alain Krivine, Cohen Bendit, Geismar e Sartre, entre outros. E em Agosto do mesmo ano sofreu 185
ao lado de Alexandre Dubceck, quando da chegada de tanques do Pacto de Varsóvia esmagadores da esperança da Primavera de Praga
"Laureans é um aventureiro e um poeta de existências", como afirma Urbano Tavares Rodrigues, acrescentando que, "sendo um guerrilheiro da Poesia, os seus poemas estão carregados como espingardas de frases retumbantes e de versos como orações à Vida". E José Augusto Seabra, prefaciador do livro Razão da Memória, ao apresentá-lo no Teatro Sá de Miranda, em Viana, considerou-o uma possível reminiscência de Fernão Mendes Pinto, um Quixote contemporâneo, e um especial em diversos sectores.
Em 1989, estando em Berlim, contribuiu para o derrube do Muro, e trouxe diversos fragmentos do mesmo.
J. Maria G. S.
Laureans ao Ataque


Por Urbano Tavares Rodrigues


Verboso (de mais e de menos) é um livro muito agressivo, radical, escrito com a costumada violência e atitude desafiadora de Laureans.
Para mim, a parte mais valiosa deste volume, onde há certo talento poético, lapidar, satírico, que pode ir até ao obsceno, mas também passa pelo lírico e pelo épico, pelo moralístico, é Proesias. Em especial as Odes. E destas as ...às Palavras e ... à Água.
Na Correspondência e nos micro-retratos, a que o autor chama "análise (mais ou menos) parcial," há juízos de que muitas vezes discordo totalmente, como no caso de José Luís Peixoto, por exemplo, mas que são frontais e ferinos, quando não escarninhos. E alguns também favoráveis.
De tudo isto ressalta igualmente o retrato do autor, que não se priva aliás de nos fornecer os seus dados biográficos, não sem algum humor.
Considero a reacção do Urbano, à leitura de Verboso 1, com enfoque demasiado, talvez por amizade ao J.L.P., a um dos núcleos da (bomba de fabrico caseiro), assim considerou Mário Cláudio o Verboso1. Recordo referências comuns do Urbano e de José Augusto Seabra, quando lhes lia, em período de estruturação, a proesia Forma e Forma. Tendo ambos manifestado apreciar o burilamento do jogo das palavras, citando-me... Adolfo Casares Monteiro o qual eu, sem vergonha pela minha autenticidade digo, não havia visitado...


Az / L.

Laureans: Verboso (de mais e de menos)
Por Salvato Trigo*


(Na apresentação do livro em Viana, primeira edição reduzida, e com outra capa. No Porto fora apresentado por Mário Cláudio.)


1. Comecemos pelo arquitecto, como diria Gerard Genette, ou pela arquitectura do livro que aqui nos trouxe hoje.
2. A capa, semioticamente observada e lida, contém algumas informações verbais, crónicas e gráficas que importa não deixar passar desapercebidas. (Refere-se à capa do Verboso1).
3. A primeira das informações verbais, destacada pelo tipo e pela cor, põe nome ao livro – o seu título – VERBOSO (de mais ou de menos). Ficamos, desde logo, a saber, por antecipação, que o discurso que percorrerá o livro ora será epitético e perifrástico ora se conterá na lítotes, numa mensurabilidade da escrita aqui abundosa ali mitigante.
4. E esse título deixa-nos já suspeitosos do jogo, do jogo de Laureans, aliás Az, seu heterónimo como confessa, afinal, numa enunciação sempre outrante de enunciados biotípicos de um sujeito civil que não se revela. A escrita anuncia-se, portanto, "laureansiática" e "azimótica", aquela porque combatente, esta porque demandante de um azimute, sobrevisto interiormente, a partir, estou certo, de um zigurate dos muitos que este "estranho" autor habita.
5. Autor que é Laureans e de repente ocorre-nos imaginá-lo um particípio presente, uma forma gramatical dum verbo que na nossa língua comum tem a ambiguidade semântica que vai de "laurear" (= ser laureado, premiado) até ao "laurear" o queijo ou, neste caso e muito a propósito, a escrita.
6. É nessa ambiguidade que me fixo, quando leio, na "dedicatória" que me escreveu, o "abraço do laureansãmente". É, então, que adiro, por antecipação ou por cataforicidade, a esta escrita que se "laureia" mas sãmente. Isto é, sei, desde logo, que este livro me irá impelir ao vaivém duma leitura de fronteira com a loucura, literariamente entendida, como a entenderam os modernistas e contemporâneos do "Orpheu", desde Ângelo de Lima, a Raul Leal, passando obviamente pelo Fernando Pessoa e pelo Almada Negreiros do "Manifesto Anti-Dantas".


*Reitor da Universidade Fernando Pessoa.



7. Aqui, no livro, que se cognomina a si mesmo como "Literatura Marginal" – e esta é outra das informações verbais da capa, desta feita no triângulo encarnado do seu canto inferior direito – esse manifesto também existe e é profuso e, se não é explicitamente "anti-Dantas é, pelo menos, "anti-Coutos" (de Couto Viana), para que se saiba que esta escrita é assumidamente "idoloclasta" e não propriamente iconoclasta.
8. Trata-se, então, de um livro literariamente sem margens, por isso repleto de licenças poéticas e de licenciosidades, o que lhe garante o epíteto de "literatura marginal", naquela acepção em que Arnaldo Saraiva a entende de "oposição explícita ou implícita à literatura dominante, oficial, consagrada, académica, e mesmo clássica".
9. É óbvio que, fora eu Agostinho de Campos (1870-1944) esse paladino da defesa da tradição literária, e diria, após a leitura deste livro, que o seu autor é um dos "vários meninos traquinas e um outro palhaço, a brincar com coisas sérias", conforme ele se referia ao surrealismo emergente de Breton e seus companheiros.
10. Como não sou Agostinho de Campos e porque convivo mal com o reaccionarismo, porque ele não aceita o super-realismo, porque ele, com a cegueira da ordem, não percebe que também na desordem existe ordem, desde que a vejamos pelo prisma certo.
11. A desordem poética do Ângelo de Lima ou da novela vertígica de Raul Leal ou da estória fragmentada do De Profundis, Valsa Lenta, do José Cardoso Pires, perpassa em seu tipo por este livro de Laureans, fruindo, fruindo-se "laureansãmente", ora no excesso de referencialidade e de sentido ora na rarefacção semântica do vazio.
12. E, todavia, a capa ainda nos prende com a languidez de um amendoado olhar feminino e a carnez sensual de uns lábios que se fecham, abrindo-se para dizer o indizível ou para a sensualidade dum beijo de amor que, ao que suspeito, persegue a memória deste Laureans ou Az, autêntico "cavaleiro andante" de Antero à busca do palácio encantado da ventura, e esse será aqui, neste livro protestado, como o dia em que os povos ultrajados, como o Curdo de que Az é eu, tenham suas merecidas pátrias de liberdade.
13. A liberdade que este livro respira por todos os poros e que seu prefaciador, Alberto Antunes Abreu, metaforizou, e bem, no mito de Cadmo.
14. Liberdade, desde logo, estrutural, o que lhe permite miscigenar géneros literários e formas e registos de linguagem diversos: o 19
desenho, a fotografia, o tópico, a crónica, o ensaio, o poema, a epístola, tudo se mesclando numa textualidade que se mestiça e na promíscua, algumas vezes, sem loucura excessiva, convenhamos.
15. Também neste mulatismo de escrita é Laureans consequente, assumindo-se como "libertário de eco-anarco-socialista", elegendo os advogados, ditos impropriamente "defensores da lei", como destinatários duma verrinosidade sem limites, portanto, sem margens, isto é, marginal.
16. Mas, ao mesmo tempo, que somos preparados, como leitores, para uma travessia do livro bem altercada, também somos convidados à meditação confuciana ou à evolação etérea da música clássica de seus "irmãos" compositores, de Beethoven, Mussorgsky, Ravel Rachmaninov, Bruckner e sua longa lista.
17. Escritor de miscelânea e sibilina e afoitamente galanteadora e brejeira, Laureans, qual tecelão franciscano, vai se deleitando com oxímoros que esvaziam o tempo, tornando-o prenhe do nada
18. Viajante e viajeira esta escrita vai de continente em continente, torna-se caleidescópica na crítica política ao novo imperialismo, na solidariedade com povos oprimidos; e torna-se também estereofónica, tecendo-se em canais diferenciados, já só ouvindo o que lhe interessa, para não explodir na raiva contra a vaguidade da vida social hipócrita.
19. No entanto, essa escrita não deixa de ser modal, respeitadora dos modos e das diáteses verbais, e do condicional no idioma a suplantar-se ao imperfeito .
20. Cidadão do mundo (e se mais mundo houvera lá chegara), autodidacta da história, da literatura, da música, da ciência política, da religião, da filosofia, da arte, Laureans deixa-nos nos "tópicos vários", com que abre este seu livro, a interpretação verbal plena do retrato que dele fez o escultor Zé Rodrigues, mesclando também ele Pégaso com Ícaro, dando asas sobejas a uma imaginação infrene que seus detractores certamente chamarão de esquizofrenia.
21. Aos "tópicos vários" seguem-se "Diagnósticos", o primeiro feito à maneira do "Se" de Rudyard Kipling e os três seguintes em "proesia", como ele próprio cunhou muita desta sua escrita. Nestes diagnósticos, é, em suma, o famigerado marialvismo português que é visado, afirmando-se uma relação literária com a figura feminina de um platonismo evoluído.20
22. A seguir, com ("In)gratidão, passa a escrita a analisar uma das mais nefastas patologias humanas, levantando-se a questão da revisão conceptual que tenhamos de fazer, comparando certas atitudes ditas humanas com as dos animais.
23. Com "Questões lexicais e idiomáticas", reencontramos um autor de fina atenção e de conhecimento sustentado sobre a qualidade da expressão linguística. Esta sucessão de nótulas espelha bem ao degrau a que se chegou no apoucamento do idioma!
24. A "correspondência", na carta de Urbano Tavares Rodrigues, se resume eloquentemente a escrita de Laureans, feita de "irrequietude", de "cultura dos livros e da vida, em tumulto", de "sensibilidade poética bravia, irregular, especial". Subscrevo e confirmo nas epístolas ao "caríssimo ‘irmão’ José Saramago" e à "Fina"d’Armada
25. Na "Proesia" consagra-se a marginalidade da escrita de Laureans, feita da plenitude do vazio, semântico ou sonoro, dos anagramas ("falo" – "fá-lo" ), da brejeirice e da ordinarice acintosa, do jogo de palavras ("Tu-eu e as Forma e Forma", do manifesto de Abril. Louve-se "Mulher" e "Visões" – ao Corsino Fortes e sobretudo o autobiográfico "Fonte do Souto".
26. Há nesta proesia a desordem ordenada de que lhes falei, demonstrante de que o privilégio em Laureans é o da enunciação muito mais do que a dos enunciados. Mas a literatura é também isto!
27. Seguem-se as Odes e aqui ocorre-nos de novo Antero de Quental, nos temas e nos tons, destacando-se a "Segunda Ode às Palavras" e também "Ode à Água" pelo que esta tem de cosmopolitismo.
28. Os "Haicais ou Haicus" têm momentos de luminosa simplicidade, porque estribada em sageza que a vida dá. Mas também estes confirmam a pertença deste livro à Literatura Marginal.
29. O sobrevoo sobre as letras e a cultura portuguesa contemporâneas é curioso da multiplicidade de interesses culturais e cívicos do autor. As asserções que aí são feitas trazem a marca dum discurso que não convive facilmente com o ditirambo.
30. As crónicas com que o livro se termina, antes dos dados biobibliográficos do autor, muito bem retratado por Onofre Varela com lenínico ou maoístico boné, são fragmentos de fel aos coutos e às coutadas e de mel à cultura, à literatura e aos "irmãos" em quem se revê franciscanamente.
31 Eis um livro que na policromia da capa, qual bandeira de liberdade dum povo, mostra a variedade dos assuntos e o polimorfismo do 21
seu discurso. Afinal, mostra-nos o eu fragmentado e descentrado dum sujeito de enunciação que nem é Laureans nem Az, sendo, todavia, os dois e mais os outros que se insinuam nesta escrita que se ama e se odeia, porque é uma escrita conflituante com um mundo minguado de ser e excessivo de ter.
32. E Laureans ou Az é apóstolo do ser e escariotes do ter, como um verboso de mais e de menos fica participado no particípio presente de seu nome.


O comentário de Salvato Trigo enriquece com risos..., até a vice-presidente
da Câmara e o prefaciador na apresentação do Verboso 1

Comentários


Verboso de mais e de menos, de Laureans,
ou ABomba de Fabrico Caseiro

Por Mário Cláudio
1. Razões de uma resistência: entre Almada e Dantas.
2. Um livro desconcertante: cabe tudo.
3. Um livro agreste: só as mulheres e só a música.
4. Um livro informe: cabe tudo.
5. Razões de uma rendição: entre Cristo e Bakunine.
6. Balanço de ganhos: a condenação da vaidade, a profilaxia da inveja, a higiene da língua.
7. Contra Laureans ou a favor dele.
8. Um certo xamanismo das moléstias lusas.
9. Uma trança na barba.
10. Um aperto de mão.


O brevíssimo texto e tanto dizer em 10 pontos, do Mário Cláudio, por instinto cultural conduz-nos ao Sinai.
Se o primeiro nos induz... ao Almada Negreiros e ao Júlio Dantas, os segundo e quarto inspiram-nos recordar algumas das multímodas interpretações possíveis de estudiosos da filosofia de Jean Jacques Rousseau, podendo passar por Napoleão, Mussolini, Hitler, por naturalistas, ecologistas e anarquistas. Sendo o próprio Rousseau, tão contraditório não admira! (Apesar de amante do anarquismo, Az prefere, objectivamente, o racionalismo de Voltaire, de Diderot, de Holbach, d’Alembert e de outros enciclopedistas).
Az/Laureans

Verboso II







Pre …
Estória de Cadmo e de Laureans
Em perseguição da vaca chegou à Beócia. E Cadmo aí fundou uma cidade. Para a santificar, quis sacrificar aos deuses a vaca directriz. Procurou água para as indispensáveis abluções, mas um dragão lhe vedou o acesso à fonte. Cadmo matou o dragão, arrancou-lhe os dentes e semeou-os ao vento. Estes germinaram e deram origem a valentes guerreiros, que fundaram a linhagem da nobreza da novel cidade.
Façamos como o príncipe fenício e esparjamos os dados. Se assim o fizermos aos dentes, encontraremos Camões a identificá-los com os Portugueses, "dentes de Cadmo desparzidos". O dragão, por sua vez, figura no timbre das armas de Portugal. Cadmo, príncipe fenício, teria sido quem no Ocidente difundiu a escrita. A vaca que o guiou é Io, metamorfose de Europa, que assim escapou às fúrias do pai dos deuses, para vir a ser sacrificada, às portas de Tebas, por seu irmão, em honra de Minerva.
Baralhemo-los novamente. Cadmo é quem espalha, fixa a escrita, mas dispersa as palavras, o verbo e o discurso. Os inimigos da palavra livre são os deuses instituídos, que perseguem por libido, inveja, soberba e prepotência; são as regras instituídas que um escritor livre não pode senão violar, se quiser que algo fique intacto. Ora, esse algo sobrevivo só poderá ser a própria liberdade.
A liberdade é quem nos permite dizermos o que sentimos, rompermos as fronteiras das proibições, as barreiras das convenções, o estereótipo do acomodatício bom comportamento. A liberdade permite-nos ler, numa sequência epistolar, ler uma história de vida como as Cartas ad Atticum de Cícero, por estas não terem a pretensão didáctica das Epístolas de Horácio ou Sá de Miranda. Podemos mesmo construir um romance como A correspondência de Fradique Mendes ou a sua recente recriação por Agualusa na Nação Crioula. A liberdade de escrita epistolar encontramo-la também na correspondência de Lebasi, endereçada ao Laureans. A força dum animal pode residir nos dentes ou nas garras. Mas dentes que dão homens só os desses dragões míticos que apreciam 44 elementos do belo sexo em qualquer "dia-feira da semana" em Diagnósticos, e, por S. Jorge os ter vencido, o fizeram inepto para figurar no calendário litúrgico, mas apto a incarnar um orixá tão importante como Ogun. A liberdade é essa capacidade de romper bloqueios convencionais de escrita, de empregar plebeísmos mas zelar pela pureza da língua, de criticar os 16
profissionais da TV, da Rádio, políticos nos seus discursos, escritores e outros responsáveis… que a infringem.
Baralhemos novamente os dados. Baralhemos mesmo os morfemas internos das palavras e construamos novos paralogismos. Iacta alea, o que nos aparece sobre a flanela verde da mesa é uma sequência: tópicos, diagnósticos, (in)gratidão, questões – recorrentemente questões, numa incessante preocupação polémica e problematizadora – questões lexicais e idiomáticas, correspondência, proesia, longas odes e sintéticos haicus, epígrafes ± lapidares. E podemos concluir que, à força de tanto contestar – nervosa, incessante e mesmo atrabiliariamente – Laureans se tornou senhor dum discurso poético dotado já duma versatilidade que lhe permite oscilar entre a sátira (biliosa) e uma ternura de amor quase infantil, entre a poesia e a prosa, entre ambas e a "proesia" (para usar um paralogismo seu), entre o didáctico da ode e o sentencioso, o lírico e o dramático.
Laureans começou há anos a publicar contestando: fazendo de "louco" porque assinava com o nome civil, assestou o montante contra os moinhos das convenções e destruiu alguns gigantes. O primeiro foram os seus próprios bloqueios; depois, a apreciação do vulgo; depois ainda, algumas convenções, o que lhe permitiu granjear apreciáveis estimas (que parecem recíprocas): de Euclides Rios, Urbano Tavares Rodrigues, José Augusto Seabra, Amadeu Torres, José Rodrigues, Ana Briz, José Saramago, Cândido Lima, Fina da Armada, Lídia Jorge, Maria Helena Vieira da Silva, Beate Klarsfeld, Jeannine Zana, etc. (E, se calhar, ainda há-de contar a de Couto Viana, de tanto que o critica). Assim, do esforço dum "louco" (e a loucura já S. Paulo a erigiu em sinal de inovação) nasceu Laureans: militante generoso das grandes causas, singelo e simples desvelador irritante e incómodo do bom senso, contradito e contraditor…
Aqui o temos. Negando o tempo, situando-se poeticamente para lá do futuro e para cá do microcosmo, semeando liberdades e delas fazendo nascer odes, sacrificando à poesia a sua própria alma, postado junto aos muros de Tebas com este livro na mão, verboso de mais e de menos, aguardando que a esfinge lhe ponha, também a ele, a questão fatal de vida ou de morte a que todos estamos condenados a ter de responder.
E Laureans muito tem escrito, contradito e contraditado, controverso, e a contra seu gosto, também elogiado. Tudo isto tem passado em busca da resposta exacta a uma pergunta cujo formulário, creio, nem ele conhece.

Viana do Castelo, 2005 Janeiro 27.
A. Antunes de Abreu






quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Laureans na Ancorensis

Foi no âmbito de uma sessão de MATEMÁTICA PARA A VIDA, do curso EFA de Assistente Familiar e de Apoio à Comunidade que o poeta Laureans nos saudou com a sua agradável presença. O enquadramento não deixou de fazer sentido visto que a matemática que aqui aprendemos é para a vida. Assim como o curso é para formar pessoas para a comunidade, ou seja, para a sociedade. Neste contexto, esta trilogia MATEMÁTICA, VIDA e SOCIEDADE constituiu o suporte da conversa que tivemos com o poeta. Ou por acaso alguém duvida que a Matemática não tenha nada a ver com a poesia? E com a arte?